Tem coisas que eu não gosto muito de falar. Sobre empresas estatais ou privatizadas, por exemplo. Não entendo muito do assunto. Mas essa história, essa confusão toda em torno da Vale, me fez perder um pouco do meu receio, pelo menos por hora.
Primeiro, a contextualização.
Recebi em casa a revista Isto É, junto com um informativo do Itaú que dizia: "Essa revista não é o único presente que você vai ganhar do Itaucard". Eu nunca li a Isto É, nem mesmo assinei a revista. Não tenho conta no Itaú, e NUNCA PASSEI MEUS DADOS, COMO NOME E ENDEREÇO, PARA ELES. Não sei como descobriram. Mentira. Sei, e eu poderia processá-los por isso: compra de informações pessoais é crime (mas quem sou eu pra falar disso?).
Caindo a revista nas mãos, decidi saborear esse enviado dos céus. Duas reportagens me chamaram atenção: a crítica indireta ao governo Lula, feito diante da defesa das atitudes da Vale (acusando o governo, inclusive, de ingerência na empresa, que é - ou melhor, foi - privatizada) e a sobre o início da adolescência (que, argumenta a revista, é cada vez mais precoce, tendo como marco hoje a idade entre 12 e 13 anos).
Com relação à segunda, tenho pouco a dizer. A adolescência não existia à 200 anos atrás, isso é uma invenção humana, na verdade, psico-pedagógica, que pretende inferir um período de tempo entre a "infância" e a "vida adulta". Como tal, ela é passível de interpretações, então essa visão passada pela revista nada tem de novo. Relacionar a adolescência com alterações fisiológicas, aliás, é um fato interessante, porque nos faz pensar que a adolescência é algo natural. Não é, assim como a crise da moralidade infantil também não. Mas deixa para lá, eu quero mesmo é falar da Vale.
A revista faz toda uma crítica à postura do governo de Lula, defendendo descaradamente Roger Agnelli, seu gestor. O Guilherme Scalzilli, jornalista da Caros Amigos e do Le Monde Diplomatique acusa Agnelli, inclusive, de fazer lobby - no sentido literal da palavra - na imprensa, procurando jogá-la ao seu lado. Acho que nem precisaria, porque tudo que a imprensa quer é esganar o Lula, mas tudo bem.
Num único parágrafo, a reportagem, a título informativo, anuncia discretamente que a Vale, bom a Vale era pública, mas foi privatizada e só cresceu depois disso. Na boa, a Vale cresceria de qualquer jeito, assim como a Petrobrás, que não foi. Era uma questão de tempo. Não vou descer lenha no governo FHC por isso (embora eu queira). É muito fácil vir depois e falar "pô, privatizaram a Vale na década de 90. FHC filha da puta, vendeu ela a preço de banana e hoje ela vale bilhões!". Não acho que os economistas sejam futurólogos, então - embora previsível - a venda pode ser justificada (se é justificável a história é outra). O problema é que esse argumento vale para outro lado, esse sim criticável: a Vale não cresceu "por causa da privatização".
Mas acho que é nessa nota da Isto É que as coisas mostram um pouco a sua faceta. A Vale realmente está defendendo o interesse de seus investidores, a maioria estrangeiros. Ela é uma empresa que foi privatizada, ou seja, pertencia ao Estado brasileiro. O raciocínio é, então, afirmar que essa política adotada pela Vale (que explora minérios brasileiros à vonts e manda o dinheiro pra fora) está, no mínimo, equivocada.
Equivocada porque favorece algo que sempre nós criticamos: para alguém enriquecer, alguém precisa necessariamente se fuder legal. Pessoas estão enriquecendo com isso. Outras, quebrando a cara. Os brasileiros.
Não quero que o meu discurso soe nacionalista, eu defenderia isso - como defendi na Bolívia, com a privatização das usinas da Petrobrás - mesmo em outros países ou situações A própria Isto É dá os elementos para o meu discurso. Segundo a revista, a Vale lucrou 21, 3 bilhões ano passado. Tem 60 mil empregados. E, esse ano, mandou 4 mil embora, algo em torno de 7% dos seus funcionários.
Uma empresa lucra 20 bilhões e manda 7% dos funcionários embora e a revista a defende, dizendo que está correta diante da crise? Espera um pouco, pára o mundo que eu quero descer. Tem gente ganhando bilhões em cima de uma empresa que explora minérios que nem mesmo lhe pertencem, ao mesmo tempo em que manda quase um décimo dos seus funcionários embora e, o pior, cria atritos com o Estado que é, na teoria, o verdadeiro dono desse minério? E ainda vem uma revista de merda defender isso? Porra! Nunca vou abrir uma conta no Itaú, que me mandou essa revista só pra me irritar, (e nem no Bradesco, que tem investimentos fortíssimos na Vale) depois dessa!
Lula está certíssimo, falta sim a Agnelli "visão de Estado". Como Presidente, é função dele defender os 4 mil demitidos, assim como os minérios que são explorados à torto e a direito só para enriquecer um bando de paga-lanche que fica o dia todo na Bolsa de Nova Iorque sem gerar emprego, lucrando em cima de especulações.
E depois a Isto É ainda vem e compara a Vale com a Petrobrás, afirmando que a segunda é "dócil aos seus [Lula] ditames". Sim, a Petrobrás não foi privatizada, ela AINDA é uma empresa público-privada que DEVE SOFRER INGERÊNCIA DO ESTADO. E a Vale, que não pode, deveria, já que ela só é privada porqe um ser brilhante decidiu assim. E não foi o Lula.