sábado, 24 de outubro de 2009

Distância

Dorzinha no peito, braços meio moles, pensamento à distância, sempre à distância. Odeio despedidas. Viro as costas sem nem dizer adeus; é um tchau à distância, abafado, escondido entre lágrimas, oculto, desses que a gente não mostra porque dá vergonha.

É pouco tempo - tento me consolar -, poquíssimo. Quase um fui, tô lá, cá de volta. Quase. O passado me espreme de lembranças, que nem deviam surgir (sou dramático). O futuro, pensamento à distância, do que ficou pra fazer, dos que ficaram sem palavra, nem história.

Um até logo, aceno de mão, sorriso no rosto, dizendo assim:

- Te amo.

Amanhã já vem aí.

E a Vale era nossa...

Tem coisas que eu não gosto muito de falar. Sobre empresas estatais ou privatizadas, por exemplo. Não entendo muito do assunto. Mas essa história, essa confusão toda em torno da Vale, me fez perder um pouco do meu receio, pelo menos por hora.

Primeiro, a contextualização.

Recebi em casa a revista Isto É, junto com um informativo do Itaú que dizia: "Essa revista não é o único presente que você vai ganhar do Itaucard". Eu nunca li a Isto É, nem mesmo assinei a revista. Não tenho conta no Itaú, e NUNCA PASSEI MEUS DADOS, COMO NOME E ENDEREÇO, PARA ELES. Não sei como descobriram. Mentira. Sei, e eu poderia processá-los por isso: compra de informações pessoais é crime (mas quem sou eu pra falar disso?).

Caindo a revista nas mãos, decidi saborear esse enviado dos céus. Duas reportagens me chamaram atenção: a crítica indireta ao governo Lula, feito diante da defesa das atitudes da Vale (acusando o governo, inclusive, de ingerência na empresa, que é - ou melhor, foi - privatizada) e a sobre o início da adolescência (que, argumenta a revista, é cada vez mais precoce, tendo como marco hoje a idade entre 12 e 13 anos).

Com relação à segunda, tenho pouco a dizer. A adolescência não existia à 200 anos atrás, isso é uma invenção humana, na verdade, psico-pedagógica, que pretende inferir um período de tempo entre a "infância" e a "vida adulta". Como tal, ela é passível de interpretações, então essa visão passada pela revista nada tem de novo. Relacionar a adolescência com alterações fisiológicas, aliás, é um fato interessante, porque nos faz pensar que a adolescência é algo natural. Não é, assim como a crise da moralidade infantil também não. Mas deixa para lá, eu quero mesmo é falar da Vale.

A revista faz toda uma crítica à postura do governo de Lula, defendendo descaradamente Roger Agnelli, seu gestor. O Guilherme Scalzilli, jornalista da Caros Amigos e do Le Monde Diplomatique acusa Agnelli, inclusive, de fazer lobby - no sentido literal da palavra - na imprensa, procurando jogá-la ao seu lado. Acho que nem precisaria, porque tudo que a imprensa quer é esganar o Lula, mas tudo bem.

Num único parágrafo, a reportagem, a título informativo, anuncia discretamente que a Vale, bom a Vale era pública, mas foi privatizada e só cresceu depois disso. Na boa, a Vale cresceria de qualquer jeito, assim como a Petrobrás, que não foi. Era uma questão de tempo. Não vou descer lenha no governo FHC por isso (embora eu queira). É muito fácil vir depois e falar "pô, privatizaram a Vale na década de 90. FHC filha da puta, vendeu ela a preço de banana e hoje ela vale bilhões!". Não acho que os economistas sejam futurólogos, então - embora previsível - a venda pode ser justificada (se é justificável a história é outra). O problema é que esse argumento vale para outro lado, esse sim criticável: a Vale não cresceu "por causa da privatização".

Mas acho que é nessa nota da Isto É que as coisas mostram um pouco a sua faceta. A Vale realmente está defendendo o interesse de seus investidores, a maioria estrangeiros. Ela é uma empresa que foi privatizada, ou seja, pertencia ao Estado brasileiro. O raciocínio é, então, afirmar que essa política adotada pela Vale (que explora minérios brasileiros à vonts e manda o dinheiro pra fora) está, no mínimo, equivocada.

Equivocada porque favorece algo que sempre nós criticamos: para alguém enriquecer, alguém precisa necessariamente se fuder legal. Pessoas estão enriquecendo com isso. Outras, quebrando a cara. Os brasileiros.

Não quero que o meu discurso soe nacionalista, eu defenderia isso - como defendi na Bolívia, com a privatização das usinas da Petrobrás - mesmo em outros países ou situações A própria Isto É dá os elementos para o meu discurso. Segundo a revista, a Vale lucrou 21, 3 bilhões ano passado. Tem 60 mil empregados. E, esse ano, mandou 4 mil embora, algo em torno de 7% dos seus funcionários.

Uma empresa lucra 20 bilhões e manda 7% dos funcionários embora e a revista a defende, dizendo que está correta diante da crise? Espera um pouco, pára o mundo que eu quero descer. Tem gente ganhando bilhões em cima de uma empresa que explora minérios que nem mesmo lhe pertencem, ao mesmo tempo em que manda quase um décimo dos seus funcionários embora e, o pior, cria atritos com o Estado que é, na teoria, o verdadeiro dono desse minério? E ainda vem uma revista de merda defender isso? Porra! Nunca vou abrir uma conta no Itaú, que me mandou essa revista só pra me irritar, (e nem no Bradesco, que tem investimentos fortíssimos na Vale) depois dessa!

Lula está certíssimo, falta sim a Agnelli "visão de Estado". Como Presidente, é função dele defender os 4 mil demitidos, assim como os minérios que são explorados à torto e a direito só para enriquecer um bando de paga-lanche que fica o dia todo na Bolsa de Nova Iorque sem gerar emprego, lucrando em cima de especulações.

E depois a Isto É ainda vem e compara a Vale com a Petrobrás, afirmando que a segunda é "dócil aos seus [Lula] ditames". Sim, a Petrobrás não foi privatizada, ela AINDA é uma empresa público-privada que DEVE SOFRER INGERÊNCIA DO ESTADO. E a Vale, que não pode, deveria, já que ela só é privada porqe um ser brilhante decidiu assim. E não foi o Lula.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tem uma história de Jesus que caiu no esquecimento, por conta do advento do sistema capitalista. Vocês sabem, ou devem saber, que a maioria desses contos - Andersen, Grinn, etc - foram adulterados com o tempo, sendo adaptados para as novas sociedades, porque é essa a função principal deles: educar.

Eu não acho isso ruim, é normal até; quer dizer, na história original a Chapeuzinho Vermelha morre (bobeou, o Lobo come!), e talvez desse muito mais medo na época, porque pô, hoje em dia lobo só em zoológico. Antes não, eles andavam pela cidade, comiam as ovelhas, as crianças... Assim como na historinha original, João e Maria não conseguem escapar da floresta, os pais abandonam mesmo e a bruxa os come: canibalismo era razoavelmente comum até a Baixa Idade Média, principalmente em tempos de fome.

E... Tinha uma história de Jesus que é a seguinte: ele saiu andando por aí, oferecendo trabalho para as pessoas. Aí ele encontra um cara, e fala: te pago tanto se você trabalhar pra mim por hoje. E o cara ia lá e ficava na colheita durante o dia. Aí ele andava mais um pouco, encontrava outro cara, e de novo: te pago tanto se você trabalhar pra mim por hoje.

Chega o fim do dia, Jesus reúne as pessoas e dá a mesma quantia para todos. Os que chegaram primeiro reclamam, alegando que trabalharam por mais tempo em relação aos que foram chamados depois, conforme Jesus ia procurando mais pessoas.

Eis então que Jesus responde:

- Com vocês eu fui justo; com eles, caridoso.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Capitalismo e o Medo da Liberdade

Eu acho que é um anseio geral das sociedades capitalistas a auto-promoção da liberdade. Com isso quero dizer que em toda a sociedade capitalista (que é o mundo - ou a Matrix - em que vivemos), a liberdade aparece como um de seus alicerces político e ideológicos, sendo utilizada como instrumento de subverção.

Hoje mesmo, li em um jornal uma coluna em que o jornalista defende a liberdade de expressão de seu periódico, contra reclamações de treinadores, jogadores, e etc, sob a argumentação de que o bom jornalismo é o que incomoda. Como exemplo, ele cita o diário oficial do governo de Fidel Castro, para ele um objeto a ser jogado no lixo - vez que é alvo de censuras.

Na hora, passou pela minha cabeça uma série de reflexões. A primeira delas é que, realmente, o bom jornalismo é aquele que incomoda. Mas essa pergunta perpassa por outra, que é: "todo jornal que incomoda é bom?". Acho que a resposta seria negativa. Não, não. Existem incômodos e incômodos, evidente. O bom é aquele que gera reflexão, que faz as pessoas se sentirem fora do seu chão cotidiano, que coloca em questionamento paradigmas. O ruim é aquele que gera suspeita, desconfiança e, acima de tudo, que pode ser traduzido por incompetência. O que o referido jornalista - claramente um imbecil - defende é, tenho certeza, o segundo. Não vou entrar em pormenores do porquê desta conclusão, porque não é esse o foco deste post.

O que mais me chamou a atenção foi o exemplo dado: o de que todo jornal que é alvo de censura é um lixo. Outra mentira. Todo jornal segue um editorial. Tente um jornalista questioná-lo publicamente e verá a sua resposta no olho da rua. A liberdade de imprensa, ainda que existente do ponto de vista legal, tem em um de seus limites a própria realidade: a auto-censura de editoriais e de chefes  (e, porque não, de leitores) que, ao se deparar com algo que nãos lhes é do feitio, mandam aquilo ser refeito.

Mas isso é em favor de exemplo. Quero ir mais longe, mas para outro lado, além de um mero "jornalismo livre".

Acho que todos já devem ter visto alguma crítica à ausência de liberdades em outros regimes que não o capitalista. Crítica à ditadura, aos regimes fascistas e nazistas, etc. Essas críticas merecem uma reflexão um pouco mais ampla: não é a ausência de liberdade o ruim desses regimes. É a forma como a censura se impõe, por meio da violência.

Indo mais além, a proibição das pessoas se reunirem em grupos em um regime militar é basicamente a mesma que temos hoje, do toque de recolher, da lei do psiu, do proibido fumar em lugares fechados. O que muda, evidentemente, é a forma de punição. Na sociedade capitalista, esta é pecuniária, e nem poderia ser diferente. Num regime ditatorial, ela é física.

Os regimes ditatoriais, portanto, não são mais restritivos à liberdade do que uma sociedade capitalista. Isto é uma grande falácia. Eles apenas não possuem limites na hora de punir, adotando em mãos o grande cutelo, e colocando a preservação do bem social acima de tudo (claro que essa postura gera uma redução das liberdades com relação à sociedade capitalista. Mas isso não ocorre por conta das restrições, e sim do grau de coercitividade delas, confundindo assim ilícito penal com crime).

E aí, vemos a internet. O regime capitalista, a sociedade capitalista, ainda não aprendeu a lidar com a internet em todos os seus aspectos - e não falo, aqui, de pirataria, pois esta já foi devidamente incorporada, ainda que ilegalmente, às estruturas. Falo na liberdade de opiniões que instrumentos como blogs, facebooks, orkuts e twitters proporcionam.

A NBA, liga profissional do basquete americano, já se posicionou face à isso. Diante de declarações suicidas de um jogador, internado por uso de drogas, e de afirmações polêmicas de outro, dizendo estar treinando com um técnico de merda, essas formas de comunicação estão devidamente proibidas. Hollywood está indo no mesmo caminho, vez que uma declaração indevida de um ator - como avisar que participará de um filme - pode custar milhões de dólares que sairiam da publicidade.

Na era da informática, a tendência da sociedade capitalista é, assim, ir cada vez mais limitando as liberdades novas que vão surgindo. Não é novidade, e tal postura é essencial para manter a operacionalidade do sistema.

Só não vale dizer, depois, que as nossas liberdades são hoje maiores do que as outras.

Recorro, para isso, do exemplo que gerou a quebra do sistema colonial em Portugal e Brasil, a revolução de 1820 ocorrida em Lisboa. Os revolucionários exigiram do monarca uma Constituição (assim como seu regresso à Portugal). Dentre os princípios basilares desta, a liberdade de imprensa.

Vale dizer que a lei que previa a liberdade de imprensa durou cerca de um ano (de julho/1821 à fev/1823), sendo depois derrubada por aqueles mesmos que a exigiam, sob o temor de que esta pudesse ser a responsável (como foi) de uma contra-revolução que derrubaria o regime então vigente.

Para manter-se no poder, e isso independe do sistema em que vivemos, a liberdade é um grande problema. Ela é, assim, sempre um instrumento revolucionário (ainda que possa ser apropriado pelo sistema dominante, como é hoje em dia).

O Macaco

Estava lá eu, no meio da terra dos homens, a me perguntar sobre o porquê daquele monte de placas, e sinais, e avisos, e tudo mais. Fiquei matutando, matutando, e decidi perguntar pra um ser humano que passava. Eis que ele me responde que é pros humanos não se perderem, e serem lembrados do que eles podem ou não fazer! Veja só que coisa mais absurda!

Deve ser reflexo dessa mania dos homens de catalogar, e dividir, e racionalizar sobre tudo... Nunca vi macaco precisar de placas avisando o que ele num pode fazer! Muito menos passarinho perdido por aí, perguntando aonde ele está... E olha que passarinho viaja pelo mundo todo.

Também nunca vi animal preso em trânsito. Se ele quer chegar em algum lugar, ele chega. Os humanos não, sempre nesse anseio de organizar tudo, acabam gastando um tempo que só!

Acho que eles têm medo de descobrir que a razão é, na verdade, o que limita aquele cérebro deles. Nós nunca paramos pra organizar nosso mundo, confiamos no instinto, e estamos aqui...

E depois eles se dizem superiores! Dúvido! Nunca humano nenhum conheceu o mundo da mesma forma que a baleia, que está sempre aí, dando voltas pelo oceano. A "tecnologia" deles não chega tão fundo né? Hahahaha...

E depois eles vêm dizer que são melhores do que nós, porque pensam e porque conhecem o espaço. O que que tem lá que não tem aqui, aonde eles vivem?

Sou muito mais ser macaco...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Amoras

Um ventinho gostoso batia em seu rosto, enquanto ele olhava pela janela de seu carro. O cheiro da grama molhada, aquele ar úmido, os raios de sol batendo na paisagem, como pinceladas de luz, davam-lhe uma doce sensação de dejá-vu. Era época de amoras.

Aquela entradinha escondida no meio da estrada, de terra batida e pedras mal colocadas, lhe era inteiramente familiar. Fazia quantos anos que ele não ia até ali? Provavelmente mais de uma década, pensou, enquanto estacionava o carro em algum canto e descia para apreciar a paisagem.

A entrada do que antes era um sítio estava meio acabada, mas ainda lá. A portinhola de madeira rangeu forte, lamentando a quebra do silêncio. Há muitos anos atrás, dois cachorros viriam recepcioná-lo.

Ele entrou, olhando para o caminho de pedras que levava até a casa. Elas continuavam iguais. Caminhou por entre elas dando pulinhos, como se fossem quadradinhos de amarelinha. Era assim que ele fazia quando era mais novo...

A casa estava bem acabada, e era bem menor do que em suas memórias, mas ainda estava lá, intacta. Foi caminhando até a porta, chave na mão.Colocou-a na fechadura, enquanto respirava fundo, fazendo um esforço para não se deixar levar pelas lembranças, e entrou.

Do lado de dentro, aquela casa ainda estava como ele deixara, há muito tempo atrás. Abriu as janelas, para espantar a poeira e deixar a luz entrar. A cozinha ainda estava lá, ordenada. Foi para o banheiro. O chuveiro ainda funcionava. Caminhou pela sala, tateando a parede. Aqui costumava ficar a tevê. Meus avós se sentavam lá, perto da janela... As memórias iam aos poucos voltando, enquanto lágrimas caíam copiosamente.

Foi até o quarto. O seu quarto. Olhou para a cama, ainda arrumada. Abriu sua escrivaninha. Tudo ali, seu canivete, seus segredos. Até seus livros ainda estavam lá na estante, ainda que devorados por traças. Saiu, em direção à porta dos fundos. Quantas vezes escapara por lá, sorrateiro, à noite, para caminhar pelo mato!

Abriu a porta, dando de cara com a varanda. Olhou para o que, antes, era um pomar. A grama estava alta, rebelde. O laguinho, antes cheio de peixes, era só musgo. Algumas árvores haviam caído. A hortinha, que era carinhosamente cuidada pelo seu avó, não mais existia. Foi caminhando em direção às árvores. Olhou para as macieiras, para aquele pé de jaca, de romã. Ainda estavam lá, bem onde sua memória havia deixado! Lembrou-se da amoreira. Correu até ela, e... lá está!

Sua mente voltou alguns anos no tempo. Ele tinha, agora, onze anos. Adorava aquelas amoras, e as comia desesperadamente, como quem estava para morrer de fome. Quando reparou, sua camisa estava completamente manchada. Na ocasião, tomara uma bronca enorme de sua mãe...

Agora, quase vinte anos depois, ele olhava novamente para aquele arbusto. Das folhas, caíam gotas de água, resquício da chuva que caíra à pouco. Algumas amoras estavam lá, meio sujas, mas suculentas. Ele sabia que não se podia lavar amoras, porque assim, com um pouco de barro e sujeira, elas ficavam bem mais gostosas. Pegou algumas e as devorou, como uma criança.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O copo está lá, meio vazio, pendente de água. Água inquieta, mas translúcida, distorcendo as imagens como uma lente mal colocada. Ele pega o copo na mão, observando o fenômeno. Há meia hora atrás ele poderia jurar de pés juntos: o copo estava meio cheio. Definitivamente.

Com o vazio do copo, um vazio da alma, junto à uma dorzinha na garganta e um aperto desconcertado no peito. Há meia hora atrás, quando ele se sentou na mesa daquele restaurante, ela ainda era dele.

Aliança dourada no bolso, buquê de flores caído no carro.

Há meia hora atrás, aquele copo estava meio cheio...